Logo, os textos da Bíblia devem ser interpretados em sintonia com a Igreja. Somente sendo Igreja é possível compreendê-la. Este é o critério para a leitura e interpretação da Sagrada Escritura: estar em comunhão com a Tradição, com o Magistério, com o corpo eclesial. Qualquer coisa fora disso é pessoal.
Um dos principais argumentos contra a doutrina do Sola Scriptura, usada por aqueles que desconhecem completamente do ela se trata mas se apoiam no que imaginam que seja, é o argumento das múltiplas interpretações.
- Dado que a verdade é una e imutável; duas interpretações contraditórias de um
mesmo texto não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
- A Bíblia, como palavra de Deus, contém a verdade absoluta e não contraditória.
Existem inúmeras interpretações conflitantes da Bíblia entre grupos cristãos,
cada uma reivindicando ser a verdadeira.
- Se cada pessoa ou grupo interpreta a Bíblia de maneira individual e autônoma, a
multiplicidade de interpretações gera confusão e divisão, o que contradiz a
unidade da verdade.
- Portanto, deve haver uma autoridade central, estabelecida por Deus, para interpretar autenticamente as Escrituras e preservar a unidade da verdade. Para os católicos, essa autoridade é o Magistério da Igreja.
Mas que prova concreta temos de que a interpretação do magistério é a infalível? Temos a prova cabal que é a condenação de Galileu Galilei!
“E enquanto este Santo Tribunal quis remediar a desordem e os danos que dela derivavam e que cresciam em detrimento da Santa Fé, por ordem de Sua Santidade e dos Eminentes e Reverendíssimos Senhores Cardeais desta Suprema e Univesal Inquisição, o Os Teólogos Assessores avaliaram as duas proposições da estabilidade do Sol e dos movimentos da Terra da seguinte forma: Que o sol seja o centro do mundo e imóvel é uma proposição filosoficamente absurda e falsa, e formalmente herética, por ser explicitamente contrária à Sagrada Escritura;
Que a Terra não seja o centro do mundo nem imóvel, mas se mova mesmo com movimento diurno, é filosoficamente igualmente absurdo e falso, e pelo menos teologicamente errôneo na Fé.” […]
“Dizemos, pronunciamos, sentenciamos e declaramos que você, o acima mencionado Galileu, pelas coisas deduzidas no julgamento e confessadas por você como acima, tornou-se, de acordo com este Santo Ofício, veementemente suspeito de heresia, nomeadamente de ter realizado e acreditou numa doutrina falsa e contrária à divina e Sagrada Escritura: que o sol é o centro do mundo e não se move de leste para oeste, e a terra se move e não é o centro do mundo, e que pode sustentar e defender como provável uma opinião depois de ter sido declarada e definida contrária às Sagradas Escrituras.”
Tradução para o Português: https://catolicismoromanorefutado.blogspot.com/2024/05/galileu-acusado-deheresia-igreja.html
Tão infalível é a interpretação romana, fortemente influenciada pela filosofia tomista aristotélica, que quando colocada a prova entre fatos concretos comprovados por experimentação (observação astronômica) e fatos abstratos baseados em conclusões filosóficas (como a filosofia aristotélica-tomista) os fatos concretos precisaram se render a conclusão filosófica. Conforme vimos no trecho da bula inquisitorial de Galileu, ele foi julgado pelo crime de heresia por suas conclusões cientificas. Não somente as obras de Galileu entraram no índice de livros proibidos como também as de Copérnico, pois o heliocentrismo era considerado contrário a bíblia, uma heresia, de acordo com a autoridade do magistério da interpretação infalível. Além de Giordano Bruno e outros filósofos, cientistas e eruditos censurados que estão listados aqui. Apologistas católicos, como o professor de filosofia Guilherme Freire, na live “os mitos sobre a inquisição”, negam que Galileu foi perseguido por razões religiosas, este chega a dizer que a igreja nunca perseguiu cientistas e que os inquisidores utilizavam o método científico, não há nem o que dizer a respeito disso, contra fatos não há argumentos, os arquivos da condenação de Galileu estão aí, online, disponível a todos, bem como os registros da inquisição. Se hoje, com amplo acesso a informação a disposição e todos, ainda mentem dessa forma para os fies, é difícil até de imaginar como deveria ser no passado, para aquelas pessoas que viviam na censura por justificativas religiosas e como foi a luta dos reformadores de seguirem a lógica e a própria consciência em meio a tudo isso.
Segundo Donald H. Kobe, professor de física na Universidade do Norte do Texas:
“Sem a Reforma, a ciência moderna provavelmente teria se desenvolvido em qualquer evento por causa do ethos da racionalidade e da doutrina da criação propícia a ela. A Reforma, no entanto, acelerou o desenvolvimento ao criticar a escolástica e ao enfatizar a observação direta da natureza. Lutero foi chamado de Copérnico da teologia, enquanto, por outro lado, Copérnico foi chamado de Lutero da astronomia. De fato, Thomas Sprat, um clérigo anglicano e um dos primeiros membros da Royal Society, enfatizou que houve uma reforma, alguns diriam revolução, tanto na filosofia quanto na teologia [3]. Na filosofia ou ciência natural, as questões sobre a natureza não eram mais respondidas principalmente citando Aristóteles e os escolásticos, mas voltando-se para a observação e experimentação da própria natureza. Da mesma forma, após a Reforma, os protestantes não mais respondiam a questões em teologia principalmente citando filósofos e teólogos escolásticos, mas voltando-se diretamente para a Bíblia. Lutero interpretou as Escrituras perguntando: qual é o significado claro e direto do texto? Os cientistas interpretam a natureza da maneira mais simples, usando o mínimo de hipóteses.”
Fonte: https://www.leaderu.com/science/kobe.html
Como eu vou saber a interpretação certa se o magistério não me disser?
A verdade de Deus é perfeita e imutável, mas a interpretação humana das Escrituras é limitada. Se o magistério que se diz infalível já disse que é do desejo do Espírito Santo que heréticos sejam queimados (ver post sobre as teses condenadas de Lutero), que a bíblia defende o heliocentrismo, entre outros absurdos mais que podem ser abordados futuramente, se pode concluir 2 coisas:
- O magistério é falível e não há uma instituição detentora da verdade;
- O magistério é infalível e todas as atrocidades citadas estão certas;
O bom senso nos leva a crer na primeira opção. O protestantismo parte do princípio de que há apenas uma interpretação correta, mas ninguém é possuidor dela de forma integral. Exceto pelas verdades explicitas no evangelho, todo o resto da teologia é aberto a estudos e discussões, pois não ferem o ponto central. Apesar de vertentes diferentes do protestantismo tirarem conclusões diferentes sobre fatores secundários que não interferem na salvação, o magistério infalível muitas vezes já se utilizou de pretextos bíblicos para fazer seus membros pecarem. O que é mais lógico: estar em união no meio do erro total ou ser unido no que é verdade fundamental de fé enquanto tem liberdade de discordar de pontos secundários que são especulativos? se o primeiro, os próprios pais da igreja eram hereges, pois apesar de estarem de acordo com o evangelho, tinham divergências teológicas debatidas na época que são debatidas até os dias de hoje.
Seria ótimo que no mundo tivesse uma instituição que fosse a dona da verdade, não só da teologia, mas de todos os assuntos, dessa forma eu não teria que ter o trabalho de raciocinar e poderia viver apenas seguindo cegamente o que ela diz, tal qual o pessoal do livro 1984. Mas todas as instituições e governos e poderes que fizeram essa promessa, ajuntaram um exército de obedientes cegos e trouxeram consequências trágicas para o mundo. Percebe que não é assim que as coisas funcionam? Nem mesmo no jardim do Édem, a realidade ideal, o ser humano era privado do direito de pensar por si mesmo e fazer escolhas, distinguir por si mesmo o bem do mal e optar por seguir aquilo que lhe parecer mais correto.