Certa vez, acabei me envolvendo em um debate teológico sobre um tal paralelo entre Eva e Maria. Os católicos tentavam me convencer de que a analogia fazia todo o sentido, seguindo a lógica de que o mal entrou no mundo por conta da desobediência de Eva, enquanto o bem entrou no mundo pela obediência de Maria; Portanto, Maria é mãe de Deus mãe da igreja. Pois bem, essa afirmação para mim é algo muito questionável, portanto, abordarei aqui meus pontos sobre esta questão.
1. O mal entrou no mundo através da desobediência de Eva ou de Adão?
Paulo nos diz em Romanos 5:12–19:
“O pecado entrou no mundo por meio de um só homem, e o seu pecado trouxe consigo a morte. Como resultado, a morte se espalhou por toda a raça humana porque todos pecaram. Antes de a lei ser dada, já existia o pecado no mundo; porém, quando não existe lei, Deus não leva em conta o pecado.”
As Escrituras deixam muito claro que quem foi responsabilizado pela introdução do mal foi o homem através de sua desobediência, e não a mulher (Eva), já que ele era o cabeça da mulher.
2. Jesus só nasceu por conta da obediência de Maria?
Desde os tempos mais antigos, o povo de Israel já recebia profecias sobre a chegada do redentor do mundo, nenhuma delas aponta esse evento, o mais importante da história, como sendo algo condicional a obediência (ou desobediência) de uma mulher, inclusive, ela nem sequer é pessoalmente mencionada em nenhuma destas profecias com um papel que não seja coadjuvante da história principal.
A igreja católica indica a repetição da oração “Ave-Maria” na qual a primeira parte é o trecho bíblico onde o anjo anuncia à Maria sua gravidez do Espírito Santo, vejamos a passagem:
“E, aproximando-se dela, o anjo disse: — Salve, agraciada! O Senhor está com você. Ela, porém, ao ouvir esta palavra, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que poderia significar esta saudação. Mas o anjo lhe disse: — Não tenha medo, Maria; porque você foi abençoada por Deus. Você ficará grávida e dará à luz um filho, a quem chamará pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo. Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai.” Lucas 1, 28.
As escrituras deixam muito claro que o anjo Gabriel apareceu e a anunciou que ficaria grávida, não a sugeriu, pediu permissão ou esperou sua autorização para que se cumprisse a vontade de Deus.
3. A divindade do Cristo provém do Espírito Santo ou provém de Maria?
Para que Maria seja chamada mãe de Deus, seria necessário que ela fosse geradora da divindade, mas isso não ocorreu, a divindade veio por meio do Espírito que a concebeu, enquanto a parte humana do Cristo veio através de sua genética da linhagem de Davi. Percebe-se isso de forma clara ao analisar a trindade: Jesus é tão Deus quanto o Pai e quanto o Espirito Santo. Pode-se dizer que Maria é mãe do Deus Pai, ou mãe do Espirito Santo? obviamente que não, pois antes que ela nascesse, a causa primeira já existia. Maria foi Mãe de Jesus na terra, mas não mãe de Deus, pois Deus não pode ter mãe.
Como disse Agostinho:
“At that time, therefore, when about to engage in divine acts, He repelled, as one unknown, her who was the mother, not of His divinity, but of His [human] infirmity.”
NPNF1: Vol. VII, Tractates on John, Tractate CXIX, §1, John 19:24–30.
4. Quem é a mãe da igreja?
Enquanto o magistério romano diz que Maria é a mãe da igreja, Paulo nos diz nas escrituras:
“Mas a Jerusalém que é de cima é livre, a qual é mãe de todos nós.” Gálatas 4:26
Maria foi certamente uma mulher exemplar, alguém a quem nos inspirarmos, mas que essas qualidades não sirvam de prerrogativa para se cometer o pecado que Deus mais abomina, a idolatria.